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fevereiro 13, 2009
Gosto muito de listinhas, mas esta deu uma trabalheira dos diabos
Uma das questões que tem tirado o sono à parte mais interessante, sensível e atenta da humanidade é saber qual é, afinal, o melhor solo de harmónica de Bob Dylan. Como é óbvio, é impossível encontrar uma resposta definitiva sem a mesma ser o fruto de um complexo processo de selecção, no qual a capacidade analítica, a objectividade e o conhecimento enciclopédico são fundamentais se não queremos produzir listas constrangedoras, cuja leitura levará impiedosamente os devotos à perplexidade e os curiosos ao bocejo. Por isso, resolvi contribuir para esta causa, ao elaborar uma lista que doravante deverá ser vista pelas gerações vindouras como o cânone dos dez melhores solos de harmónica do Bob Dylan e os que me levaram, há uns meses, a comprar esta pequena maravilha. Esta é, portanto, não apenas a lista de um connaisseur, mas a de um aprendiz que já consegue fazer ganir a sua cadela e levar os seus gatos ao limiar do terror cada vez que sopra numa harmónica diatónica.
(A quantidade de MP3 deste post tornava a página de entrada mais pesada que o buraco financeiro do BPN. Para ler o resto - vejam lá se vale mesmo a pena - basta clicar aqui.)
10. Tryin' to get to heaven (Time Out Of Mind, 1997)
Nos últimos anos, Dylan não tem sido pródigo na utilização da harmónica. Ainda assim, é possível encontrar numa das grandes canções de TIME OUT OF MIND (1997), um dos seus mais belos e solos. Aqui, é de máxima importância sublinhar a produção pantanosa de Daniel Lanois que consegue imprimir um efeito de envelhecimento muito semelhante ao que se pode ouvir na voz de Dylan. Paradoxalmente ou não, são 40 segundos que passarão facilmente despercebidos ao ouvinte menos atento.
9. I'll Be Your Baby Tonight (John Wesley Harding, 1967)
Se me perguntassem qual é o álbum em que o Dylan mais desbunda a sua harmónica (é incrível como ninguém me faz esse tipo de perguntas), não teria qualquer dúvida em escolher JOHN WESLEY HARDING. Em 1967, Dylan já tinha acumulado dezenas de concertos com os The Band e gravado com eles mais de sessenta temas nas famosas BASEMENT TAPES (que seriam parcialmente editadas em 1975). Para além duma rodagem em palco em que a harmónica era o seu instrumento por excelência (para quê tocar guitarra quando se tem um Robbie Robertson na banda?), os instrumentos, neste álbum, estão todos muito afastados um dos outros na mistura, o que deixa uma enorme avenida a ser preenchida pela voz de Dylan e a sua harmónica (não é por acaso que conheço muita gente que não suporta fisicamente o som estridente da harmónica neste disco). Poderia escolher praticamente qualquer um dos temas para incluir nesta lista («I Dreamt I Saw St. Angustine» e «All Along The Watchtower» seriam escolhas óbvias), mas optei pela canção que fecha o álbum por ser nela que Dylan mais se afasta dos tiques bluesy dos discos anteriores. Depois de «I'll Be Your Baby Tonight», o country não mais voltaria a ser visto como um género menor para rednecks e hillbillies.
8. Peldging My Time (Blonde On Blonde, 1966)
Por falar em tiques bluesy, embrulhem lá isto. É incrível como este tema não surge na lista da Stylus Magazine, de tão óbvio que é.
7. Desolation Row (Highway 61 Revisited, 1965)
Este também é muito óbvio, apesar de ainda há dias um amigo meu teimar que o tema não tinha qualquer solo de harmónica (o palerma). É verdade que é preciso esperar 8 minutos e 40 segundos para chegar lá, mas chega-se lá com uma perna às costas.
6. I Want You (Blonde On Blonde, 1966)
Talvez a melodia de harmónica mais famosa da carreira de Dylan. Mas o que é verdadeiramente admirável é o diálogo do instrumento com o órgão tocado por Al Kooper. «The lonesome organ grinder cries» o tanas.
5. Every Grain Of Sand (Shot Of Love, 1981)
Toda a fase cristã de Dylan, incluindo os respectivos excessos beatíficos e panfletários, se redimem neste «Every Grain Of Sand». Atrevo-me mesmo a dizer que, a haver um parênteses na sua carreira, este começa com o coda de «Where Are You Tonight?» de STREET LEGAL (1978) e termina com este tema que fecha SHOT OF LOVE (1981). Aqui, a harmónica é um instrumento assumidamente telúrico, cujo sopro está em perfeita consonância com uma das suas mais belas letras. Não dá para converter um infiel, mas anda lá perto.
4. Percy's Song Biograph, 1985)
Ora aqui está mais um tema que esteve mais de duas décadas na gaveta até ser editado em 1985. «Percy's Song» foi gravado nas sessões de THE TIMES THEY ARE A'CHANGING (1963) e, mais uma vez, não é fácil um gajo entender por que raio terá ficado de fora, na medida em que é superior a qualquer uma das canções que acabariam por entrar no disco. Aqui, não há propriamente um solo, mas uma sucessão de pequenos arranjos de harmónica fodidíssimos de tocar, devido à forma como convocam a quase totalidade das técnicas que se podem aplicar no instrumento (isto está tudo a soar-me muito mal). A verdade, no entanto, é que mesmo sem a harmónica, esta continuaria a ser uma das minhas canções favoritas de sempre, a tal que possui os únicos arpeggios de guitarra capazes de superar os de «Don't Think Twice, It's Alright».
3. I Shall Be Released (Greatest Hits II, 1971)
Este é um clássico. Originalmente gravado nas BASEMENT TAPES com os The Band (que posteriormente gravariam uma versão para fechar o seu álbum de estreia), esta fabulosa versão foi gravada a solo por Dylan em 1967 e, infelizmente, não entrou por uma unha negra em JOHN WESLEY HARDING. Teria dado uma magnífica abertura para um dos seus melhores discos.
2. Simple Twist Of Faith (Blood On The Tracks, 1975)
Era óbvio que esta listinha não faria qualquer sentido se não tivesse, pelo menos, uma tema de BLOOD ON THE TRACKS (1975). Poderia ter perfeitamente escolhido «Tangled Up In Blue», «You're A Big Girl Now», «Idiot Wind», «You're Gonna Make Me Lonesome When You Go» ou «Shelter From The Storm» que a coisa não destoaria.
1. What Can I Do For You? (Saved, 1980)
Sim, é verdade que a capa original de SAVED me provoca vómitos. Também é verdade que este é o mais irritante dos discos da fase cristã de Dylan, onde a sua devoção roça não raras vezes a lobotomia. E também é verdade que, a par de EMPIRE BURLESQUE (1985), este é provavelmente o disco com o som mais datado da sua carreira. Mas também é verdade que se podem encontrar aqui alguns dos seus mais fascinantes temas. É o caso de «Pressing On», «In The Garden» e deste «What Can I Do For You?» que contém, sem sombra de dúvida, os seus dois mais belos solos de harmónica de sempre.
Publicado por João Pedro da Costa às fevereiro 13, 2009 02:07 PM