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fevereiro 28, 2009

Resumo alargado com análise do lance fulcral das férias em Barca d'Alva

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Os dias que passei a semana passada em Barca d’Alva foram ainda mais luminosos do que aquele não muito distante em que a minha mãe recebeu finalmente por correio o primeiro cheque da sua reforma de França. Estive rodeado de amigos magníficos, ouvimos música, tocámos guitarra e harmónica, roubámos laranjas, cozinhámos, visitámos as ruínas da antiga estação de comboios de Barca d’Alva, atravessámos a pé a ponte férrea por cima do Águeda, seguimos pela antiga linha de comboio em Espanha, a minha cadela tomou banho no rio, maravilhámo-nos com as amendoeiras em flor, as oliveiras e as estrelas à noite, visitámos a quinta onde viveu Guerra Junqueiro e por lá vimos, a poucos metros de distância, esse ser absolutamente inverosímil e cheio de vértices que é uma raposa. Foram dias tão perfeitos que até o facto de o meu carro me ter deixado pendurado rapidamente se transformou numa aula de sociolinguística e de anatomia do corpo humano. Passo a explicar. O carro não pegava e após umas tentativas frustradas de encher cabos e velas de WD-40, resolvi pedir ajuda ao ACP (o ACP deve ser a instituição mais fiável e eficiente do nosso país: rebocaram-me o carro, arranjaram-me um táxi para fazer a viagem de regresso e ainda tive direito a um belo veículo alugado quando cheguei ao Porto). Passado uma hora, chega o reboque, conduzido por um rapaz bonito, muito bonito, não daqueles escanzelados, mas encorpado e muito saudável, a quem apetece de imediato agarrar as bochechas e despentear o cabelo. O rapaz, que, repito, era uma bela figura de um moço, lá saiu do reboque e perguntou

- Boa tarde. Então que se passa?
- O carro não pega ou o caralho.

Esta minha entrada de carrinho pelo vernáculo pôs logo o rapaz muito à vontade. Sorriu, olhando para as meninas meio embaraçado, e arriscou um

- Ai o cabrão do gajo. Vamo lá ver o que se passa, caralho.

O ambiente estava muito descontraído e, como é óbvio, os palavrões foram fluindo de uma forma muito natural da boca do rapaz. Um gajo, claro, ria-se, pois a vida já nos tinha ensinado que nessas coisas de alguém prestar serviços a outrem, o outrem tem de piar fino até o alguém ter prestado o serviço, deixando eventuais reclamações para a fase posterior à prestação do servicinho. O rapaz lá decidiu que

- Aqui não dá para fazer nada. Falta-me a merda da ferramenta.

E pediu-nos se podia ir lavar as mãos. Lá fomos. Quando chegamos à banca da cozinha, resolvi dar um ar da minha graça inventando, na hora, uma fórmula para tirar o óleo das mãos.

- Isto vai lá é com detergente da loiça e sal grosso.

E, acto contínuo, misturei os dois ingredientes nas mãos que, de imediato, e para grande surpresa minha, ficaram logo limpinhas. Eis que o rapaz se vira então para mim e diz-me em sotto voce:

- O senhor sabe o que tira bem o óleo das mãos?
- Mas olhe que o sal e o detergente funcionam...
- Sim, sim, mas melhor ainda. Sabe o que tira mesmo o óleo das mãos?
- Diga lá.
- Esfregá-las nas pachachas da cona.

O leitor não deverá aqui subestimar o efeito que a última frase, dita assim de rajada e naquelas circunstâncias, pode causar no ouvinte. Claro que o efeito poderá variar consoante as idiossincrasias do interlocutor – no meu caso, em vez de me matar a rir como agora faço cada vez que digo, oiço ou escrevo «pachachas da cona» (eu e os meus amigos tencionámos registar a marca e tudo), em vez de me rir, dizia eu, boiei durante alguns segundos na incredulidade e depois inquiri:

- Como disse?
- Nas pachachas da cona.
- Pachachas da cona?
- Sim, isso. Esfregar as mãos nas pachachas da cona.
- Mas, ó homem, isso não existe...
- Como assim?
- (Pausa) «Pachacha» e «cona» são sinó... querem dizer a mesma coisa.
- Ah, isso só se for lá pró Sul. Aqui existe e muito...
- Pachachas da cona?
- Sim. É aquela parte da barbatana.

E riu-se. Ficando ainda mais bonito.

Publicado por João Pedro da Costa às fevereiro 28, 2009 05:08 PM

Comentários

LOLOLOLOL. Espectacular, João Pedro.

Publicado por: claudia em fevereiro 28, 2009 05:26 PM

É destas histórias assim que eu gosto!

Publicado por: claudia em fevereiro 28, 2009 05:27 PM

Mas o gajo tem um dispositivo desses à mão lá na oficina?

Publicado por: derFred em fevereiro 28, 2009 07:33 PM

Ou então teve a oportunidade de experimentar uma vez e ficou a suspirar para todo o sempre. Em todo o caso, era um rapaz muito bonito.

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 28, 2009 11:44 PM

Bonito, sim senhor.

Publicado por: Valupi em março 1, 2009 02:42 AM

É aquela parte da barbatana? Mas que generosa associação de ideias...

Publicado por: shark em março 1, 2009 02:33 PM

Tuby: o rapaz era um prodígio de boniteza.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 1, 2009 09:11 PM

ah aha aha
estou a rir em frente a um monitor.É de doidos ...
Ps. O rapaz era mesmo bonito ?

Publicado por: pensante em março 1, 2009 09:23 PM

Muito, muito bonito, pensante. Era ver para crer.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 2, 2009 11:45 AM

Esse rapaz bonito seria mesmo da ACP? Pode ter havido um engano...não seria da APC ? O A acho que é de Amônia, ou Acetona...não tenho a certeza. De qualquer forma, agradecia o número de telefone do rapaz. Sou uma azelha nessas coisas da mecânica.

Publicado por: Chris em março 2, 2009 11:55 AM

azelha escreve-se aselha, asinus Chris.

erro corrente

Publicado por: claudia em março 2, 2009 12:07 PM

Obrigado Claudia. Não volto a cair no mesmo erro.

Publicado por: Chris em março 2, 2009 12:22 PM

Chris: arranjo-te na boa o número de telefone desse rapaz tão bonito. Mas não era da ACP.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 2, 2009 04:04 PM

Era da JPC?

Publicado por: derFred em março 2, 2009 08:31 PM

Il était beau. Et alors? Ça fait de lui quelque chose d'extraordinaire? D'ici peu, tu me fais une de Thomas Mann...

Publicado por: claudia em março 2, 2009 09:02 PM

Lindo!
Mecanotomia no seu melhor! continua a brindar-nos com estes belíssimos surúpios!

Publicado por: Hugo em março 3, 2009 02:12 AM

Fred: antes fosse. Era bem bonito.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 3, 2009 10:29 AM

a história é bonita. e o rapaz, como era?

Publicado por: susana em março 3, 2009 02:51 PM

Pois, ainda não disseste como era o rapaz. Era jeitoso?

Publicado por: derFred em março 3, 2009 06:35 PM

Peço desculpa: era bonito.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 3, 2009 09:45 PM

Que conversa. Tenho colegas que são capazes de manter uma conversa assim durante um almoço inteiro...elas são, eu não.

Publicado por: Chris em março 4, 2009 01:39 PM

E essas tuas colegas são bonitas como o rapaz do reboque?

Publicado por: João Pedro da Costa em março 4, 2009 02:45 PM

Eu também gostava de ser bonito como um reboque. E conseguir desempanar alguém encostado na berma.

Publicado por: Valupi em março 4, 2009 03:16 PM

JPC: algumas sim outras não. Utilizando o mesmo raciocínio linear pergunto: e o rapaz do reboque, era estúpido?

Publicado por: Chris em março 4, 2009 03:59 PM

Primo: o problema é que ele não desempanou.

Chris: nããããã.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 4, 2009 05:05 PM

Bonito e jeitoso era o farmacêutico que me desempanou hoje. Não sei porque só pensam em avarias de carros.

Publicado por: claudia em março 4, 2009 10:12 PM

Tinhas o motor gripado?

Publicado por: derFred em março 4, 2009 11:06 PM

Ai, derFred, eu já tinha saudades das tuas saídas :-) Tinha. O meu motor anda há 33 anos quase a 200km/hora. Caputei. Agora tenho que andar devagar :-)

Publicado por: claudia em março 4, 2009 11:31 PM

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