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março 13, 2009

Tadinho dele

lovetheft.jpg Devo ser das poucas pessoas que acham que o Elvis Costello não estava sob o efeito de psicotrópicos quando afirmou que LOVE & THEFT era o melhor disco do Bob Dylan. Talvez não seja superior a obras-primas como HIGHWAY 61 (1965), BLONDE ON BLONDE (1966) ou BLOOD ON THE TRACKS (1975), mas a verdade é que não vislumbro razões para lhes ser inferior. Em primeiro lugar, Dylan está aqui com a sua melhor banda (sim, ainda melhor que os The Band), com Charlie Sexton, Larrie Campbell, Tony Garnier e David Kemper a formar um conjunto uno e coeso que desbunda todas as músicas deste álbum como se não houvesse amanhã. Depois, há a produção límpida e cristalina de Dylan que está aqui apenas para servir as canções e não para projectá-las para paisagens pseudo-exóticas (ver Daniel Lanois e quejandos). Há também as canções: todas elas magníficas e enraizadas até ao tutano na vasta tradição norte-americana do último século, na qual Dylan foi, e ainda é, um dos seus mais influentes criadores e intérpretes. Finalmente, há o tom - conceito vago e movediço, mas facilmente perceptível neste «Po' Boy», uma autêntica stand-up song, cheia de humor e non-sense, suportado não apenas pelo ritmo jazzy (Django Reinhardt meets Tom Waits) e o fraseado único de Dylan (ninguém no mundo consegue debitar tantas sílabas por segundo com ele), mas também pela excelsa mestria da sua escrita. Vale tanto a pena ouvir isto com atenção que é até é meio pornográfico estar práqui a tentar vender-vos o peixe no vil HTML. Não há nada a fazer, sou uma besta.

PO' BOY (Bob Dylan, 2001)

Man comes to the door, I say «For whom are you looking?»
He says «Your wife», I say «She's busy in the kitchen cooking» (1)
Poor boy, where you been?
I already told you, won't tell you again.

I say «How much you want for that?», I go into the store
The man says «Three dollars», «All right», I say, «Will you take four?» (2)
Poor boy, never say die
Things will be all right by and by.

Been working on the mainline, been working like the devil (3)
The game is the same, it's just up on another level
Poor boy, dressed in black
Police at your back.

Poor boy in a red hot town
Out beyond the twinkling stars
Riding first class trains, making the rounds
Trying' to keep from falling' between the cars.

Othello told Desdemona, «I'm cold, cover me with a blanket! (4)
By the way, what happened to that poison wine?»
She says «I gave it to you, you drank it»
Poor boy, laying' them straight
Picking'up the cherries falling off the plate.

Time and love has branded me with its claws
Had to go to Florida, dodging them Georgia laws
Poor boy, in the hotel called the Palace of Gloom
Calls down to room service, says «Send up a room». (5)

My mother was a daughter of a wealthy farmer
My father was a traveling salesman, I never met him
When my mother died, my uncle took me in (he ran a funeral parlor)
He did a lot of nice things for me and I won't forget him. (6)

All I know is that I'm thrilled by your kiss
I don't know any more than this
Poor boy, picking up sticks
Build you a house out of mortar and bricks

Knocking on the door, I say «Who is it and where are you from?»
Man says «Freddy!», I say «Freddy who?», he says «Freddy or not here I come!» (7)
Poor boy, beneath the stars that shine
Washing them dishes, feeding them swine.

(1) Ou a infedilidade na génese do chauvinismo.
(2) Irmãos Marx.
(3) Nunca a palavra «devil» foi digna de tão suprema dicção.
(4) Como é óbvio, é impossível citar os irmãos Marx sem citar o mano Shakespeare.
(5) Genial.
(6) Talvez a minha estrofe favorita de sempre.
(7) I rest my case.

Publicado por João Pedro da Costa às março 13, 2009 12:52 PM

Comentários

A letra é espantosa, a música boa, só queria ouvir a letra mais perceptível. Ouve-se um vozear lá no fundo. Os instrumentos estão em 1º plano.

Publicado por: claudia em março 13, 2009 01:16 PM

JPC: Nem mais. E quem não conhece, que apanhe o comboio na estação de "Time out of Mind". Eu aqui fico na última paragem ("Modern Times"), ansiosa, à espera do próximo (que deve estar a chegar).

Publicado por: Chris em março 13, 2009 02:07 PM

Concordo que o disco é muito bom. Mas 'o melhor' é o teu desejo de enfatizar a surpresa por um tipo da idade dele ainda ser capaz de esgalhar coisas assim. E é arriscado. Os melhores só se destacam realmente depois de ouvidos ao longo de um tempo longo. Há sempre tanto de subjectivo nesses juízos... Os meus primeiro quatro LPs foram quatro discos do Dylan de meados de 60, entre os quais o Highway 61. Tenho muita dificuldade em encontrar na obra dele algo de 'melhor' do que essa música viciante que eu ouvia com 18-19 anos. E olha que a banda tinha pouca importância. Sofisticado era ele, e autêntico, com aqueles arranjos sem bonitinhos e com aquela voz de cana rachada.

Publicado por: Nik em março 13, 2009 03:12 PM

Nik: que alegria ver-te por aqui.

Nik & Chis (belo nome para uma banda): Olhem que o comboio arranca um pouquito antes com os dois magníficos discos de versões de temas do tempo da velha senhora: GOOD AS I BEEN TO YOU (92) e WORLD GONE WRONG (93). É aqui que o Dylan renasce depois daqueles episódios menos felizes com o Petty e uns decadentes Greatful Dead. São porventura os dois discos mais menosprezados da sua carreira.

Antes do H61, concordo que a banda era irrelevante, mas depois... Basta ouvir o famoso concerto do Judas para perceber que uma das grandes virtudes do Dylan sempre foi a de ser capaz de se integrar humildemente no meio de grandes músicos. Até porque os arranjos raramente era dele - ver o exemplo famoso do hammond em «Like A Rolling Stone» - o Al Kooper nem sequer era teclista - ou a fanfarra que ele embebedou em Nashville para gravar o «Rainy Day Women #12 & #35».

Mas este Dylan dos últimos 17 anos é um gajo impecável, senhor absoluto do seu talento, que tanto envereda pelo humor (L&T) como pelo cinismo (TOOM, MT) e que até dá uma perninha na canção de protesto («Workingman Blues #2»). E depois, caramba, ninguém canta como ele. Tentem por exemplo cantar este «Po' Boy» sozinhos. Absolutamente impossível.

Cláudia: deve ser do HTML. A voz do Dylan é aqui cristalina.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 13, 2009 03:45 PM

A alegria é toda minha. Olha, a canção foi-se, o link desapareceu.

Publicado por: Nik em março 13, 2009 11:05 PM

O Love and Theft. Finalmente alguem gosta do Love and Theft. Isto enche-me de felicidade.

Publicado por: isabel em abril 18, 2009 04:36 AM

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